Da Coisa à Sublimação

Algumas obras de arte, principalmente aquelas que revelam o pathos humano, geram um impacto, revelam a precariedade de nossas visões de mundo e nos despertam. Numa análise, as formações do inconsciente e as emergências do real, que muitas vezes também causam surpresa e até mesmo um impacto, conduzem à interpretações que podem elevar o sofrimento humano à dignidade de uma poesia. Este texto foi apresentado na Escola da Coisa Freudiana em 2024 e publicado em suas Atas.

VERÔNICA FLEITH

Verônica Fleith

2/28/20263 min read

Somos um tanto adormecidos em nossa relação com a realidade, diante da qual uma temperança da energia do prazer geralmente é buscada. O encontro com uma obra de arte pode nos despertar e revelar a precariedade de nossas visões de mundo. Aquela arte que preserva algo do indecifrável e que revela ao mesmo tempo a beleza das feridas e do sofrimento humano, seu pathos. Este efeito de despertar é também conhecido dos analisantes diante das formações do inconsciente e das emergências do real como encontros com o traumático, que surpreendem e fazem vacilar os semblantes imaginários e simbólicos que até então ordenavam ou davam sentido à realidade e que tornam sensível o indizível. Algumas sessões de análise elevam o impacto do pathos humano à dignidade de uma poesia. Os testemunhos dos que experienciaram uma análise chegando ao seu fim iluminam a obscuridade que envolve o fim de análise e a subjetivação da castração. Alguns escritos dos praticantes tocam e reverberam no laço ao outro, tal como algumas obras de arte. Seriam o efeito da sublimação?

A sublimação é um dos destinos das pulsões, a satisfação da tendência na mudança de seu objeto: do comer ao comer um livro, do tocar-se ao tocar um instrumento. O horizonte da satisfação pulsional encontra um caminho diferente, encontra seu alvo em outro lugar. Que caminho é esse, que diferentemente dos outros destinos da pulsão não passa pelo recalque e que envolve, tal como Lacan desenvolveu em A Ética da Psicanálise, a elevação do objeto à dignidade da Coisa 1? As pulsões seguem um trilhamento no psiquismo, regulado pelo Princípio do Prazer, a partir das marcas mnésicas geradas pelos primeiros traços do objeto da satisfação, em direção ao anseio do desejo que busca reencontrar tais marcas, do objeto desde sempre perdido. Neste trilhamento, as representações inconscientes gravitam em torno de um centro nomeado por Freud como Das Ding. Trata-se do centro de nosso desejo, um centro gravitacional que reenvia nosso anseio sempre a este mesmo lugar e que remete ao que, da busca em reencontrar o primeiro objeto de satisfação, se apresentou no psiquismo como algo alheio, estranho e hostil, e posteriormente se mantém, como um êxtimo; não traz a mesma temperança almejada pelo Princípio do Prazer; ao contrário denota o que na experiência subjetiva tem relação com o que restou irrepresentável da turbulência e da incandescência das pulsões; com aquilo que de estranho passa a ser reconhecido como íntimo, tendo relação com a pulsão de morte. É um lugar irrespirável, por vezes um vazio cruel, do qual é necessário manter certa distância; a causa pathomenon, a causa da paixão humana mais fundamental. “Trata-se de saber o que podemos fazer desse dano para transformar em nossa dama”.2

Numa análise, nas diversas voltas do processo de elaboração, pode-se reconhecer a atração e o mistério que a Coisa exerce no psiquismo. Algo da relação com o que desertifica a vida, com o gozo que envolve abandono e desamparo absolutos, ou excesso ingovernável das pulsões e autoerotismo, passa a ser sensível ao sujeito, que não somente recalca e se defende d(isso), mas o transforma em semi-dizeres. A partir desses significantes, articula-se, modela-se algo novo. Das sombras, faz-se luz. Mais do que se deixar abater pela repetição inexorável do gozo, perde-se uma cota desse gozo. Partindo, portanto, das sombras, o ato criativo oferece um outro caminho para a pulsão, cujas ressonâncias reverberam no sujeito e no laço ao outro, trazendo como efeito outra satisfação, “(…) a única permitida pela promessa analítica”.3 Daquilo que não vai, manifesto no fracasso e na satisfação conflitiva do sintoma, algo então vai, acontece, transforma-se em potência para o desejo. Na nova forma criada, mais do que uma repetição da busca de um reencontro com um objeto imaginariamente consistente, mantém-se uma referência à falta e dignifica-se a atração, o mistério e o indizível da Coisa.

Referências bibliográficas

1, 2, 3 – Lacan, Jacques (1959, 1960). O Seminário, livro 7. A ética da Psicanálise. Rio de Janeiro. Jorge Zahar Editores, 1991. P. 140-141, 107, 361.

Bibliografia

Duras, Marguerite (1964). O deslumbramento. Rio de Janeiro. Editora Nova Fronteira, 1986.

Lacan, Jacques (1959, 1960). O Seminário, livro 7. A ética da Psicanálise. Rio de Janeiro. Jorge Zahar Editores, 1991.

Lacan, Jacques (1965). Homenagem a Marguerite Duras pelo arrebatamento de Lol V. Stein. In Outros Escritos. Rio de Janeiro. Jorge Zahar Editores, 2003.

Lacan, Jacques (1966, 1967). A lógica do fantasma. Recife: Centro de estudos freudianos do Recife, 2008.

Recalcati, Massimo. Il trauma del fuoco. Vita e morte nell’opera di Claudio Parmiggiani. Venezia. Marsilio Editori, 2023.

Torre, Leopoldina P. Marguerite Duras, La passione sospesa. Milano. La Tartaruga edizioni, 1989.